o mar espera,
ansioso,
por trás dos
balaústres
um dia receber
o derradeiro
mergulho
da procissão
descendo,
devagarinho,
com o bloco
dos sonhos futuros

ele espera
o mundo de gente
dançando,
vibrando,
do alto ao fim
da ladeira
engolindo tudo,
desaguando
no meio das ondas,
anunciando
o fim
do fim do mundo
no próximo carnaval


ele espera na varanda
com as janelas abertas
todo dia de manhã

espera
e
abre as cortinas
e
deixa o vento entrar
aguardando
o amor,
a felicidade
e a calma
que prometeram
antes dele
nascer

não sabe
quando vêm
ou
SE
vêm
mas espera

uns anos atrás
era mais paciente

e a tristeza
hoje
é quase sempre
presente

mas ele espera
na varanda
com as janelas abertas
todo dia de manhã

das sete até as 12


escuto os gritos em palavras escritas
a força dura do respiro de ódio
em mensagens de texto
o silencio tortuoso das pausas
entre um dia e outro
as desculpas que nunca chegam
a culpa sempre presente

mas dessa vez não:
eu não vou deixar que a dúvida
me faça esquecer


faz quase um ano
desde aquele dia:
do fim de tarde
laranja,
do frio na barriga,
das mãos dadas
do Rio Vermelho
até a Barra,
dos beijos no Porto,
das coincidências
escancaradas,
das confidências
trocadas,
daquele barquinho
no meio do mar,
dos seus olhos
olhando pros meus
e dos sonhos
todos
que não tiveram
a chance
de acontecer


uns anos atrás me disseram: você está louca e eu, de fato, enlouqueci quase perdi a cabeça cruzei a cidade inteira em busca de alguma resposta esperei por horas na porta dos consultórios, me perdi nos olhares vazios dos médicos sem vida que diziam: sim, sim, é grave, mas pode esperar até amanhã e hoje eu ainda ouço os ecos dos gritos do quarto ao lado, as dores das cordas amarradas nos braços, o gosto amargo dos comprimidos, o cheiro metálico de sangue, a fumaça dos cigarros escondidos, da vodka domingo de manhã, do vômito forçado, dos cortes abertos, das…


você em mim
eu em você

santa ceia


eu tenho agora 25 anos
e o céu: que idade tem?
a lua, as estrelas, o rio
que segue lá embaixo
no vale
e as pedras…
quanto tempo tem?
eles nascem de novo,
como o dia,
quando a noite acaba?
e a água corre de novo,
do mesmo jeito que eu,
quando volto pra casa?
e morrem um pouco
também
depois de deitar com você?

eu tenho agora 25 anos
e todo o tempo do mundo
dentro de mim


amor,
eu queria te deixar com todos os beijos
que eu já te dei e outros mais
queria te abraçar por horas e horas, amor
e te amar a tarde inteira
até depois de amanhecer
meu amor, eu queria caminhar e conversar
e jogar e olhar a rua
queria banhos de mar e cachoeira
amor, eu queria carnavais e capoeira
e cervejas geladas e vinhos quentes
depois de dias inteiros no verão
mas você não vem,

amor, você não vem


seu rosto colado com o meu
a incerteza depois de
um ano ou mais
por trás das máscaras
sorrisos
de alívio
de ansiedade
de medo
saudade
a urgência dos beijos
que não foram dados
a incoerência dos braços dados
dos dedos entrelaçados
do esforço por não se conter


toda vez que eu te vejo
parece que é carnaval

Maria Eduarda Gama

entre poemas de amor e prosas escassas escrevo linhas corridas e versos ao acaso

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